terça-feira, 3 de maio de 2011

Ironia perpétua

Até que ponto conhecemos tão bem nossas fraquezas que nunca as confundimos com nossas qualidades mais precariamente sutis? Logo pela manhã realizo que nem sempre, por mais que tentemos, conseguimos manter a coerência que tanto necessitamos para ter uma vida razoável. É por causa disso que nos decepcionamos, nos frustramos, desistimos. Sua garganta seca, seu ânimo desaparece, e a força que tinha para acreditar até nas verdades mais insolentes, some. A esperança que faz de você um nato romântico e idealista se dispersa pela realidade que te engole, dia-a-dia. Não nos surpreendemos mais, portanto, pela ausência de novos idealizadores que defendam, por nós, aquilo que não conseguimos mais. Perderam eles mesmos os seus próprios. Ainda que, por um instante, admitamos que aqueles sejam subsistentes. Cansados, vazios e empoeirados procuram no deserto de si mesmos algum resíduo que os lembrem do que já foram.

Eis que um dia, descobre-se que tudo nada mais é que uma prisão particular. Nossa própria, limpa e histérica. Por dentro, gritamos batendo nos portões de ferro maciço, procurando quem nos entregará as chaves para a nossa essência. Nada mais é claro, apagaram as luzes. Cavando cada vez mais fundo pelo medo do que encontraremos lá fora, depois de tantos desafetos. Com a terra nossas suas unhas, cavamos mais e mais. Não sabemos ainda se queremos escondê-la dos outros ou de nós mesmos, como um tesouro sem mapa e sem rastro. Quanto mais profundo, mais sangram-nos as unhas, cansadas, mas movidas pela ânsia de não regressar: jamais... Até que ao fundo, exaustos, encontramos as chaves, como se tivéssemos cavado, cavado e cavado, exaustivamente, para que ao fim pudéssemos encontrá-las. Aquelas, que sequer premeditávamos ver, que por medo não queríamos ter, aquelas que lhe dariam a chance de reencontrar a nós mesmos. Ali, no fundo do poço de nossa prisão particular, com as unhas sangrando, no túnel para o esconderijo sem volta, no fim.

Dentro daquele túnel, frio e sem esperança, estava o tempo todo a chave que tanto procurávamos. As colocamos no bolso e continuamos a cavar.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Sentido que me lembra a falta de um

Início, que me lembra meio, que me lembra fração, que me lembra cálculo, que me lembra cursinho, que me lembra fim. Fim, que me lembra tragédia, que me lembra amor, que me lembra saudade, que me lembra dor, que me lembra sentimento, que me leva a toda essa nostalgia dramática. Nossas vidas são sempre formadas por esses tipos de cadeias de pensamentos, algumas vezes curtas, outras longas, que sempre fazem com que nós nos percamos no meio, imaginando lindos campos verdes, a morte de todas as bezerras do pasto, lembrando daquele belo passarinho verde que você viu no início do dia. Então, subitamente, sua mente parece despertar e você se vê parado com a cara de um boi que estivesse pastando naquele mesmo campo verde e com flores e se sente patético, com medo de alguém também ter reparado na sua cara de otário. E o pior é que você – na maioria das vezes – acaba esquecendo o que o levou a pensar tudo isso. O que pessoalmente me irrita, porque se era alguma coisa importante agora não é mais, porque acabou de ser esquecida. E, dessa forma, nossa vida é formada de instantes, de cadeias estúpidas que levam para longe... Devagar... Numa lenta viagem... Quando, de repente, você pensa em um peixe. Sim, em um peixe. Peixe, que lembra mar, que lembra areia, que lembra castelo, que lembra príncipe, que lembra ele, que novamente lembra amor, que lembra saudade, que lembra todo aquele blábláblá repetitivo. E, assim, demonstro mais uma coisa surpreendente: todos os meus pensamentos acabam parando em algum tipo de saudade. Talvez eu não tenha coragem de apagar certas memórias e certos sentimentos, e por isso eles acabam nunca me deixando... Ou melhor, eu que acabo nunca os deixando. Gostaria de ser bem-sucedida em fazer valer alguns ditados como “quem vive de passado é museu”, mas um tipo de retardamento me atinge e simplesmente, e, retardadamente, não consigo. Minha vida é um museu e eu a amo dessa maneira. Sento com meus amigos e como um verdadeiro Forest Gump conto com detalhes diversas situações, sem querer saber quem acaba se sentando para ouvir. Minha vida é um livro aberto e só espero ser aplaudida ao fim de cada história. Podem me chamar de exibicionista, não vou poder negar, mas essa é a minha natureza. “Se não me entendes, não me julgues”. Logo, se aconchegue em sua cama, ou onde quer que esteja, porque eu o peço para aplaudir não a mim, mas ao meu discurso. Para isso, estou indo atrás do meu humor natural, que deixei em algum momento estressante do meu dia. Acalme-se ele me encontrará, somos um só. Encaro isso como um desafio (um jogo de xadrez, em que só sei o movimento das peças e crio as jogadas na hora, pois tenho preguiça de planejá-las), em que devo usar o humor em uma prosa intimista patética, mas pelo o que parece já estou levando uma lavada dos peões. E aí está o humor novamente. Eu não me separo dele, nem ele de mim. Idiotice? Sim, uma idiota assumida. Então, pensei em um novelo lã. Novelo, que me lembra rolos, que me lembra vida, que me lembra bagunça, que me lembra o meu quarto, que me lembra calma, que me agonia, que me irrita, que agora me lembra bagunça, que me lembra esse texto, e no meio de tantas lembranças, lembro que ainda não possuo um fim.
Pronto, agora o encontrei.

Fim.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Razão

Não sei se meu coração envelhece mais rápido que o resto pensante de mim, mas o fato é que estou cansada. Meus batimentos não são os mesmos, ou ainda não consegui descobrir se sou eu quem não me acompanho mais. O fato é que estou descompassada e não sei mais quem olha quem: eu ao mundo ou ele a mim. A realidade não é mais o que já foi um dia, com aquela sensação turva do que era a verdade feita por mim. Agora é seca, bate e volta. Não sei mais por onde seguir, não sei da onde partir e tampouco como estou chegando lá. O fato é que estou descrente. Desvirtuada do que chamam de essência, fui corrompida a não mais acreditar. Quero ver a ingenuidade que ainda existe em mim, aquela que ainda quer o amor, aquela que vê através dos outros e tem a força do imaginável. O fato é que sou pedra. Não sinto o que os outros sentem, não acredito no dia-a-dia do meu próprio paraíso, sou e existo. BATE, Bate, bate... está enfraquecendo... Já não me alimento mais e minha própria sensatez me sabota, elegante. Quero ser o que já fui, mas discordo em mim, o que me tornei: pensante. O fato é que morri.

sábado, 4 de abril de 2009

Tarde

Foi num sábado a tarde que descobri finalmente algo que me tranquilizasse, que me fizesse pensar e avaliar aqueles sentimentos que talvez se revelem apenas num sábado chuvoso. Durante muito tempo não encontrava algo que me fizesse quebrar as barreiras entre o que eu sinto e o que escrevo, revelando meus grandes segredos, grandes anciedades e desejos. Me encontro na parte do tempo que eu mais gosto e preciosamente encontro, quando ele congela e se entrega totalmente a mim. O que sou? O que serei? Ou principalmente, o que fui? Acredito que talvez em outra oportunidade nada disso se encaixaria em mim como agora, mas finalmente consigo enxergar sentido nas respostas que conduzem minha vida. No silêncio de uma tarde, enfim, posso querer ser o que quiser. Percorro montanhas nos meus mais íntimos sonhos, desejo chegar onde ninguém jamais esteve, quero o clichê da vida de quem ainda a vive, quero ser quem sou e nada mais. Enfim, a gélida dúvida do ser me encontra e perturba a minha ingenuidade vespertina. Porque não a tranquilidade da verdade, porque não viver sem matéria, sem o risco da dolorosa inquietude que o pensamento nos traz. Quero ser quem sou: alma instável, cheia de vicissitudes, ausente de caráter, incoerente. Acontece que sou nada.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Caminho para um fim

Impressiono-me com a maldade dos outros. Fria e sem vida, como um corpo gelado que agora penetra a terra. Me orgulho da minha própria maldade, agora mais do que antes. Parece-me doce e gentil, que mais me alimenta do que me defende dos outros, serve-me de combustível para um entendimento aguçado das coisas: o mundo é cruel. O desejo pela mentira sempre me preencheu como uma arrogância qualquer, mas como um cristalino transparente, no momento em que minto milhares de sensações se passam no meu corpo, sinto que estou enganando a mim mesma e não preenchendo um mundo saciado, um "mundo caduco", saturado do que acredita-se ser bondade. Minha mentira é a pior verdade, dói, mas dói dentro de mim. Uma doença que me faz diferente dos outros: não minto por ele, não minto por ninguém, não tento ser boa, não tento acreditar, apenas sou e nada mais. Minha abrangência termina nos limites do meu corpo, ser má faz parte do que sou nunca do que esperem que eu seja. Meu desejo mais íntimo e mais imperceptível de bondade é bom demais para mim, sei que não sou tão capaz daquele fruto bruto e real. Não vejo o que é bom como caridade, como ajuda, como dádiva, vejo como uma grande percepção de si mesmo, seja ela qual for. Quando da viagem do meu íntimo vejo um resultado puro e sincero, mesmo escuro e nefasto, aí encontrarei a única bondade: a verdade sobre quem sou. Essa consciência faz de mim uma pessoa boa, mas que opta pela maldade como personalidade, não como forma de vida. Sou culpada pelo sabor doce que me traz a mentira, mas prefiro ele ao sabor amargo da ignorância impetulante: aquela que faz com que uma bondade hipócrita seja melhor do que a mais sincera maldade de mim. Fecham os olhos para o que realmente importa, o que realmente vale a pena ser visto, enfim. Não sei totalmente do que digo, mas sinto tudo o que estou tentando passar, sem pena. As percepções nunca terminam, mas sei que minha maldade não é o agente do erro, nada ela tem culpa de ser descrente de um mundo babaca que nada lhe acrescenta: não a culpe. Cheguei ao que acredito ser meu verdadeiro conhecimento: meus próprios limites e ambições. Agora sim, posso fazer o que quiser com ele, a partir daí dirá olhando no fundo dos meus olhos e observando atentamente meus reflexos e a vida que se passaram dentro deles, não adiante: minha essência foi a real semente do caos? Sou espectadora real das coisas, sou protagonista da minha própria vida. Meu egoísmo me deixou longe e agora não me envolvo com um todo, sou eu e só. Faço o que acho certo, mas sou o que vejo de errado, sem lástimas. Sou o resultado de erros, mentiras, mas minhas atitudes são desprendidas de um pré-conceito, pois não espero dos outros o mesmo resultado puro e sincero que encontrei daquela busca de mim. Seria injusto esperar dos outros a mesma conclusão, e afinal o que seriam os atos que se não reflexos de diversas conclusões: procura-se a verdade, sem medo, que terás sua personalidade nua e crua, sem expectativas.
Olhei dentro dos seus olhos e clamei, verdade. Não faça parte de mim da maneira que outros fizeram, de um íntimo que alimenta o que sou de ruim; acrescente o pouco que ainda deseja o céu, seja um tijolo, seja uma liga, não corroa mais a aquilo que já não se surpreende. Toquei suas mãos, sinta. Mude o caminho das coisas, sem que para isso necessite de mim como passo, ou fase para alcançar qualquer que seja seu objetivo. O desejo de esquecimento deve acabar aqui, não quero mais ter medo das minhas lembranças, me esconder em algo que me traga tranqüilidade: quero paz, aqui e agora, sem entendimento. Beijei sua boca, compreenda. Não quero fugir dos seus anseios, quero tê-los também. Divida-os comigo, alimenta-me, pois estou sedenta do que seja seu, meu, tudo, agora. Será que é tão inatingível assim o amor? Devo-me contentar com as migalhas de uma caridade.
Naquela noite em claro, ouvi a mais bela verdade, percorri o caminho para a paz, pensei. Agradeci, pois ouviste a minha súplica, ali, olhando nos meus olhos, vendo o que se encontra dentro deles. Fechei-os por um minuto, o escuro do meu íntimo me convidou para a eternidade. Nesse momento, fui e voltei do paraíso com um sentimento de realização: finalmente.
Adeus.
Nunca mais o encontrei.
...

Sou o que sou, fruto de inúmeras lembranças, que talvez devêssemos nunca ter lembrado. Apenas sou o que encontrei de uma busca, no meu íntimo. Impressiono-me, ainda.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Espelho Oposto

Me refugio em mentiras, elas me seduzem. Seu veneno, sua reciprocidade intrínseca: Vive-se como quer, ama-se quem deseja, cria-se o momento, colhe-se o inesperado. Verdade essa que é esfarelada, deseja-se inteira e em um descuido despedaça-se e cai, contenta-te com o resto. O meu resto. Vivo de soltar trilhas do meu ser para que alguém me encontre, uma vez que eu mesma não posso seguir-me, viro as costas para o meu caminho. Se olho para trás encontro meu fim. Desejo tudo, anceio o desejo, tudo quero e nada conquisto. Deixo que a vida se derrame lentamente pelos meus dedos, ter a constante percepção de perda e felicidade última. Caminho correndo, sonho os melhores pesadelos, acredito no que é improvável. Dessa maneira não só não vejo como vejo o que é sem cor, sem forma, sem vida.

domingo, 13 de abril de 2008

Dilema do Ser

Quando nasci, decidi que não queria ser. Queria apenas viver assim: como quem não é nada. Fui desse jeito, crescendo de uma maneira diferente dos outros, sempre atenta à minha escolha que sempre parecera incomum, mas não sabia explicar o porquê, apenas via nitidamente dentro e fora, o tempo todo, como um dom: as pessoas se prendiam em ser e o viver passava despercebido. Sentia-me confusa com freqüência quando pequena, pois eu sempre pensei diferente dos outros, agi de forma incomum e principalmente entreguei, desejei, amei, decepcionei, odiei, muito mais intensamente que qualquer pessoa que tenha conhecido. Sem entender o porquê de não querer entender nada me deitava e observava as coisas que para todos eram como eram para mim: sem explicação. Observava assim, o céu, as estrelas, o relógio, o vento, as cores das coisas, o jeito das pessoas, o movimento dos carros, as pedras, o chão, as casas e nada disso ou daquilo faziam sentido para mim, mas pelo menos sentia que não fazia para mais ninguém e ficava calma por um momento. Até que me confundia de novo. Quando guardava os meus pensamentos dentro de mim e resolvia sair para brincar, ouvia-os conversarem sobre as coisas que eu dedicava meu tempo pensado, mas nenhum deles parecia ter fascínio por nada, como se nada daquilo fosse importante, não tivessem valor. Citavam-nas sempre, mas apenas nas lacunas entre as palavras. Duravam menos que pequenos segundos de um instante, em que eu cuidadosamente fazia questão de estar atenta para absolvê-las. “Fui até a lanchonete hoje e encontrei fulaninho por lá”. Vento, pedra, céu, tempo, cores, jeito: nada foi mencionado por ninguém explicitamente, mas eu absolvi-as todas, sempre. Passei a sentir, mais uma vez, que eu não era como os outros. Eu vivia tanto que me apegava as coisas e as guardava dentro de mim, como se fossem minhas e, portanto, tornava-as especiais. Fui amadurecendo e deixando a maioria das minhas dúvidas de lado. Continuei vivendo daquele meu jeito assim de quem não é nada e cheguei à puberdade. Acredito que agora, mais do que antes notava com clareza a minha disparidade com os outros. Possuía vários amigos, pois de tanto odiá-los, amava-os e de tanto amá-los os odiava às vezes. Alguns diziam que me amavam em troca, outros estavam longe de me amar, e não faziam questão do contrário, mas todos me respeitavam e isso parecia ser o suficiente. Outros me achavam estranha por amar tanto assim. Acontece que nenhum sabia a verdade sobre mim, pois eu mesma ainda não havia descoberto: meus sentimentos sempre foram verdadeiros, mas nem sempre bons. Mesmo amando tanto e tão fielmente, nunca pude afetar ou descobrir como os outros pensam, ou agem, e dessa maneira decepcionava-me. Tanto por esperar demais dos que amava (espelhava-me em mim mesma) como por, por não ter Sido, não ter tido a malícia de viver. Dessa maneira chorava, como se meus sentimentos por melhores que fossem não servissem de nada. Não me protegeram do sofrimento, da decepção, da angústia, do remorso. Eu não fui o suficientemente sábia para entender que meus sentimentos também me fariam sofrer. Sem nunca entender o porquê das coisas, nunca conseguira desenvolver a capacidade de selecionar onde emocionalmente me envolveria e me via uma tola sentimental e ingênua. Foi quando me encontrei em um dilema onde todas as dúvidas que tinha deixado para trás voltavam mais fortes e confusas do que nunca. Será que sua opção foi tão errada a ponto de querer voltar atrás e fazer tudo de novo, sendo? Será que todas as suas decepções foram em vão? E seu amor apenas em troca de pequenas satisfações sem necessidade? Se pudesse deixar de sentir, apenas para poder se sentir menos tola, menos ingênua, menos decepcionada, deixava? Com os olhos fechados, mais uma vez fazia o que nascera fazendo, sua escolha: não era nada, tampouco tudo seria uma mera desilusão. Como sempre sem entender nada, apenas sentiu. Tranqüilidade. Afinal. A soma de todos seus medos a fez enxergar coisas que apenas amando não enxergaria nunca: viver é ser alguém que sente tudo e antes de qualquer coisa fazer com que tudo seja viver.