domingo, 15 de maio de 2016

Noite de Domingo

Na ausência de sofrimento, não escrevo. Na ausência de confusão, não crio. Na ausência da ansiedade, não penso. Na ausência de você, inquietude. Na minha presença, plenitude. Pensamentos, aqui, ali, em todo lugar. Respiração marcada, como sempre. Imaginação ligada, não para. Memórias, as mãos se tocam, inesperado. Os olhos se fecham, eternidade. Um segundo, um beijo. A realidade é palpável, mãos nos cabelos. A mentira, intangível. O medo, na espreita. Expectativas, indesejadas, incontroláveis. O passado, mais do nunca, presente. O controle do tempo de repente tem medidas diferentes. Segundos eternos, semanas que se esvaecem. Algo é constante, êxtase. As inúmeras primeiras vezes, as surpresas, as pequenas experiências que se fazem memórias: despretensiosas. A aventura do que é viver plenamente, inteira. Se entregam tanto, que são um. Abraço e batida, um só. Respiração ofegante, não quer acordar. Não se sabe, território esquecido. Contato gradual, cresce, desce, constante. Dedos entrelaçados, cumplicidade. Nada importa, apenas micro-momento. Olhos no relógio, eterno-momento. Acordo, respiro, lembranças. Um café e as chaves do carro.  

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Monumento secreto

Cada frase é um muro de revelações, cada palavra um esconderijo. Escondo minhas intenções atrás de cada uma delas e deixo que virem verdadeiros pedaços de mim. Quando o visito, meu já vasto, longo e quase infinito muro, ele não se revela sequer para mim: é o que é, um monumento de puro mistério.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Cárcere

A porta então se fechou, completamente. E não há o que crie feixe de luz. Aguardo silenciosa, tímida, que alguém me socorra. Como pode ser tão distante a minha realidade da dele. Desligo a luz. De repente o escuro me parece mais cômodo: já que não posso vê-lo, não vejo mais nada. No meu calabouço sou guardada por mim mesma. Quando penso em sair, meus sonhos me repreendem: não existe fuga para os seus anseios mais íntimos. Tento empurrar a porta, bato com força, inutilmente. Mais uma vez, nada. Com frequência acreditamos ser mais fortes do que nós mesmos. E o cômodo se preenche de incertos. Então noto uma janelinha ao fundo, até então desconhecida. Vou até ela, permitir o ar. Me deleito na brisa que viola o cômodo... logo me visitam as noites perdidas com tantas discussões em vão. Fecho os olhos e me deito. Mais uma vez os guardas da minha prisão me censuram. Sou presenteada com um sono profundo por bom comportamento. O beijo, o abraço, o sorriso, a felicidade. Noto que minha prisão é confortável, existem cárceres piores. Levanto, bato na porta com força, nada. Escuto uma música ao fundo, se aproximando, cada vez mais marcada. Coração. Me refresco esporadicamente com a dor. Exausta da minha própria companhia, meu cárcere começa a me desfalecer. Finalmente clamo: socorro, socorro. Rapidamente batem na porta.
"Você está bem?"
"Sim, feche a porta."

terça-feira, 3 de maio de 2011

Ironia perpétua

Até que ponto conhecemos tão bem nossas fraquezas que nunca as confundimos com nossas qualidades mais precariamente sutis? Logo pela manhã realizo que nem sempre, por mais que tentemos, conseguimos manter a coerência que tanto necessitamos para ter uma vida razoável. É por causa disso que nos decepcionamos, nos frustramos, desistimos. Sua garganta seca, seu ânimo desaparece, e a força que tinha para acreditar até nas verdades mais insolentes, some. A esperança que faz de você um nato romântico e idealista se dispersa pela realidade que te engole, dia-a-dia. Não nos surpreendemos mais, portanto, pela ausência de novos idealizadores que defendam, por nós, aquilo que não conseguimos mais. Perderam eles mesmos os seus próprios. Ainda que, por um instante, admitamos que aqueles sejam subsistentes. Cansados, vazios e empoeirados procuram no deserto de si mesmos algum resíduo que os lembrem do que já foram.

Eis que um dia, descobre-se que tudo nada mais é que uma prisão particular. Nossa própria, limpa e histérica. Por dentro, gritamos batendo nos portões de ferro maciço, procurando quem nos entregará as chaves para a nossa essência. Nada mais é claro, apagaram as luzes. Cavando cada vez mais fundo pelo medo do que encontraremos lá fora, depois de tantos desafetos. Com a terra nossas suas unhas, cavamos mais e mais. Não sabemos ainda se queremos escondê-la dos outros ou de nós mesmos, como um tesouro sem mapa e sem rastro. Quanto mais profundo, mais sangram-nos as unhas, cansadas, mas movidas pela ânsia de não regressar: jamais... Até que ao fundo, exaustos, encontramos as chaves, como se tivéssemos cavado, cavado e cavado, exaustivamente, para que ao fim pudéssemos encontrá-las. Aquelas, que sequer premeditávamos ver, que por medo não queríamos ter, aquelas que lhe dariam a chance de reencontrar a nós mesmos. Ali, no fundo do poço de nossa prisão particular, com as unhas sangrando, no túnel para o esconderijo sem volta, no fim.

Dentro daquele túnel, frio e sem esperança, estava o tempo todo a chave que tanto procurávamos. As colocamos no bolso e continuamos a cavar.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Sentido que me lembra a falta de um

Início, que me lembra meio, que me lembra fração, que me lembra cálculo, que me lembra cursinho, que me lembra fim. Fim, que me lembra tragédia, que me lembra amor, que me lembra saudade, que me lembra dor, que me lembra sentimento, que me leva a toda essa nostalgia dramática. Nossas vidas são sempre formadas por esses tipos de cadeias de pensamentos, algumas vezes curtas, outras longas, que sempre fazem com que nós nos percamos no meio, imaginando lindos campos verdes, a morte de todas as bezerras do pasto, lembrando daquele belo passarinho verde que você viu no início do dia. Então, subitamente, sua mente parece despertar e você se vê parado com a cara de um boi que estivesse pastando naquele mesmo campo verde e com flores e se sente patético, com medo de alguém também ter reparado na sua cara de otário. E o pior é que você – na maioria das vezes – acaba esquecendo o que o levou a pensar tudo isso. O que pessoalmente me irrita, porque se era alguma coisa importante agora não é mais, porque acabou de ser esquecida. E, dessa forma, nossa vida é formada de instantes, de cadeias estúpidas que levam para longe... Devagar... Numa lenta viagem... Quando, de repente, você pensa em um peixe. Sim, em um peixe. Peixe, que lembra mar, que lembra areia, que lembra castelo, que lembra príncipe, que lembra ele, que novamente lembra amor, que lembra saudade, que lembra todo aquele blábláblá repetitivo. E, assim, demonstro mais uma coisa surpreendente: todos os meus pensamentos acabam parando em algum tipo de saudade. Talvez eu não tenha coragem de apagar certas memórias e certos sentimentos, e por isso eles acabam nunca me deixando... Ou melhor, eu que acabo nunca os deixando. Gostaria de ser bem-sucedida em fazer valer alguns ditados como “quem vive de passado é museu”, mas um tipo de retardamento me atinge e simplesmente, e, retardadamente, não consigo. Minha vida é um museu e eu a amo dessa maneira. Sento com meus amigos e como um verdadeiro Forest Gump conto com detalhes diversas situações, sem querer saber quem acaba se sentando para ouvir. Minha vida é um livro aberto e só espero ser aplaudida ao fim de cada história. Podem me chamar de exibicionista, não vou poder negar, mas essa é a minha natureza. “Se não me entendes, não me julgues”. Logo, se aconchegue em sua cama, ou onde quer que esteja, porque eu o peço para aplaudir não a mim, mas ao meu discurso. Para isso, estou indo atrás do meu humor natural, que deixei em algum momento estressante do meu dia. Acalme-se ele me encontrará, somos um só. Encaro isso como um desafio (um jogo de xadrez, em que só sei o movimento das peças e crio as jogadas na hora, pois tenho preguiça de planejá-las), em que devo usar o humor em uma prosa intimista patética, mas pelo o que parece já estou levando uma lavada dos peões. E aí está o humor novamente. Eu não me separo dele, nem ele de mim. Idiotice? Sim, uma idiota assumida. Então, pensei em um novelo lã. Novelo, que me lembra rolos, que me lembra vida, que me lembra bagunça, que me lembra o meu quarto, que me lembra calma, que me agonia, que me irrita, que agora me lembra bagunça, que me lembra esse texto, e no meio de tantas lembranças, lembro que ainda não possuo um fim.
Pronto, agora o encontrei.
Fim.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Razão

Não sei se meu coração envelhece mais rápido que o resto pensante de mim, mas o fato é que estou cansada. Meus batimentos não são os mesmos, ou ainda não consegui descobrir se sou eu quem não me acompanho mais. O fato é que estou descompassada e não sei mais quem olha quem: eu ao mundo ou ele a mim. A realidade não é mais o que já foi um dia, com aquela sensação turva do que era a verdade feita por mim. Agora é seca, bate e volta. Não sei mais por onde seguir, não sei da onde partir e tampouco como estou chegando lá. O fato é que estou descrente. Desvirtuada do que chamam de essência, fui corrompida a não mais acreditar. Quero ver a ingenuidade que ainda existe em mim, aquela que ainda quer o amor, aquela que vê através dos outros e tem a força do imaginável. O fato é que sou pedra. Não sinto o que os outros sentem, não acredito no dia-a-dia do meu próprio paraíso, sou e existo. BATE, Bate, bate... está enfraquecendo... Já não me alimento mais e minha própria sensatez me sabota, elegante. Quero ser o que já fui, mas discordo em mim, o que me tornei: pensante. O fato é que morri.

sábado, 4 de abril de 2009

Tarde

Foi num sábado a tarde que descobri finalmente algo que me tranquilizasse, que me fizesse pensar e avaliar aqueles sentimentos que talvez se revelem apenas num sábado chuvoso. Durante muito tempo não encontrava algo que me fizesse quebrar as barreiras entre o que eu sinto e o que escrevo, revelando meus grandes segredos, grandes anciedades e desejos. Me encontro na parte do tempo que eu mais gosto e preciosamente encontro, quando ele congela e se entrega totalmente a mim. O que sou? O que serei? Ou principalmente, o que fui? Acredito que talvez em outra oportunidade nada disso se encaixaria em mim como agora, mas finalmente consigo enxergar sentido nas respostas que conduzem minha vida. No silêncio de uma tarde, enfim, posso querer ser o que quiser. Percorro montanhas nos meus mais íntimos sonhos, desejo chegar onde ninguém jamais esteve, quero o clichê da vida de quem ainda a vive, quero ser quem sou e nada mais. Enfim, a gélida dúvida do ser me encontra e perturba a minha ingenuidade vespertina. Porque não a tranquilidade da verdade, porque não viver sem matéria, sem o risco da dolorosa inquietude que o pensamento nos traz. Quero ser quem sou: alma instável, cheia de vicissitudes, ausente de caráter, incoerente. Acontece que sou nada.