sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Leia.

O vermelho escarlate ofuscante do relógio marca meia-noite e vinte e quatro, minha mente não me deixa em paz. Devo revelar meus sentimentos, agora, nesse quarto escuro, onde minha única bússola é a luz que sai da tela e me convida com pressa para uma verborragia insana. Fui proibida de ser. Minha primeira pessoa está censurada e a terceira, ansiosa, espera sua chegada. Ela não acontecerá. De mim, você não sabe nada. Só sabe o que eu o oriento a ver, sentir. Então, me obedeça agora e teremos uma parceria perfeita. Feche os olhos e sinta comigo, nada mais verá a não ser o que meus dedos queiram que você sinta. Deixe-me guiá-lo e não se preocupe com onde irá chegar, chegaremos juntos. A qualquer momento pare, rasgue, esqueça, estou lhe desafiando a tentar. Conhecerá por meio de mim o que é o Meu sentir, em uma sedução selvagem. Imagine. Vejo a porta entreaberta, dela sai aquele típico feixe de luz sombria. Abro-a delicadamente em minha insaciável curiosidade e escuto aquele ranger misterioso de madeira rústica. Tiro os sapatos e entro. Sinto o aroma das velas me envolver e a curiosidade que surgiu em mim ainda naquela porta, fica cada vez mais desafiada a descobrir de onde surgira tamanha exuberância. Minha cama estava de frente para a varanda, como de costume, mas o vento que violava meu quarto estava mais místico e carregado do que nunca, me convidava para algo que eu ainda não sabia dizer o que era. Alguém me seduzia e eu não queria que essa sedução acabasse, era meu vício. Com passos de veludo caminhava como quem quisesse chegar ao fundo de um mistério, descobrir um assassino, e conforme os segundos passavam minha vontade era de descobrir mais nada e sim de ser assassinada. O calor da lareira ao canto da sala, alimentava meu desejo e o frio vindo da janela me tocava como quem toca o cetim. Pisava em meu assoalho de madeira, que esta noite estava coberto com pétalas negras de rosas, cuidadosamente escolhidas para o exato segundo em que meus pés as quebrassem. Minha casa era antiga e à noite suas paredes rangiam com o vento, me confidenciando milhares de tentações. Quem estava ali me seduzindo? Quem era meu amante, meu admirador? Não sei. Só sei que agora me seduziu por completa e me teve; o amo. o admiro. Sentei na beira da cama e fechei os olhos, toquei sutilmente meu corpo cansado na tentativa de fazer com que chegasse até mim. Enlouqueceu-me. Conseguiu seu objetivo, e aqui estou, apaixonada por meu sedutor desconhecido. A tensão me toma. Solto meus cabelos, tiro meu relógio, meus brincos. Tudo parece pesar. Finalmente caio sobre a cama... Silêncio.

Escuto um som aveludado, como um sussurro... Discreto, ao fundo do quarto, de um tilintar de dedos em um isqueiro. Volto meu rosto rapidamente, na pressa que me faz querer vê-lo. E ali estava, o tempo todo, ao fundo, onde cuidadosamente planejado passei despercebida. Sentada elegantemente em uma poltrona de couro, com as pernas inclinadas em uma posição soberba, como uma baronesa toda de preto. Colar de pérolas e cabelos soltos, longos e morenos, olhos de safira maquiados e indecifráveis, parados olhando para mim. Batom rubro, em uma boca seca e indescritível. O cigarro alojado entre os dedos, como se o entrelaçasse. Ali, alojada confortavelmente em sua cadeira estava o sujeito de tudo isso: Eu. Parada e imponente, fazendo meu próprio jogo apaixonante. Estava sendo admirada e desafiada por mim mesma. Eu mandei, eu fiz, eu vivi, eu criei: Tudo.

Agora lhe pergunto, querido e fiel leitor, que receava aos meus comandos e agora chega até aqui, com um só sentimento: Desejo. Quem é o sujeito, quem é o objeto, quem é o leitor? Eu ou você?

Ah... Acredite Mon amour, nós somos os três.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Minha confusão se abrange e toma novas proporções, maiores, enormes. Dúvido da minha capacidade, que tipo de poeta eu sou afinal, que não escrevo sobre a vida, bela, encantada? Sou um não-poeta, não escrevo poesia, desfaço-a. Descubro sabores novos, morte inusitava e simples: é ou não é. É um não e sim constante, maniqueísmo intrínseco das coisas, que apenas eu vejo. Louca, não louca, quase. A grande lacuna de um quase, que chega próximo de um sim distante de uma certeza, perto de um não de repente tão certo como um ainda. Me refugio por trás dessas lacunas, fujo do certo e imponente, sou feita de pó. Evito toques longínquos, aproximação que torna parte de mim humana, me transporto pelo vento. Procuro meu móvel egoísta, que só existe e nada mais. Me tornar parte dele e ele de mim, ser espectadora fiel de tudo e de todos reservando espaço para petálas de perdão. Envelheço e permaneço intocada, sólida e perfeita. Carregada de vida dos outros, nunca a minha. Caduca, volto em si. Me reintero escultura, pó não-pó, solitária. Eternizada e inconstante, num sopro vou e levo comigo memória-de-areia.
Com a pausa constante de um minuto, o grande intervalado acontece:
Quase me lembro certamente ainda por um segundo que de repente me esqueço de .

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Crio um blog, mas não como todos que procuram uma identificação diária com a escrita ou algum tipo de descarga para seus pensamentos. Não que eu ache errado ou julgue quem o faz, simplesmente não o faço. Começo dizendo um pouco de mim e depois explico a finalidade do mesmo, afinal a de haver uma.
Meu drama sempre fora tão íntimo que parecia inventado, criado a partir de dúvidas, que me consumiam. Nunca soube o que sentir, uma dor oriunda de dúvidas nada mais era do que uma dor incerta, dor inventada, sem certeza: nem sim nem não, talvez. Em que mundo me encontro então? Se não o meu próprio, onde tudo ficava fora do limite entre uma lacuna e outra. Sempre soube que se morasse nas estrelas, vivesse de sonhos, não existiria terra segura e fresca, tão pouco loucura, tudo seria lucidez: o que me prende a realidade teria sido desfeito por mim. Não gosto do mundo que criaram para mim, simplista demais, nada me acompanha. Sinto-me sempre maior do que os outros; narro onisciente e onipresente a vida tão previsível que as pessoas insistem em viver. Sempre alcancei os topos, tive os melhores, fui mais forte e mais sábia, me mantive sempre segura do mundo: não vivo nele, finjo que sim. Ninguém me atinge nada me conquista sempre me mantive elegantemente distante. Misteriosa com certo limite, sempre deixei clara minha decepção com a realidade. Atuo na sua magnitude de poder: quando rio, não é felicidade pura e simples, é charme em forma de felicidade, todos se apaixonariam por meu sorriso. Em um pequeno minuto me torno triste. Dissimulação. Enceno a agonia, gosto do gosto amargo da mentira. Sempre verdadeira, embora duvidem do contrário. Minha verdade somente se encontra longe, para que poucos, quase nulos, conseguissem chegar até ela.
Minha finalidade na verdade eu desconheço, escrevo para quebrar essa antiga tradição de chegar em algum lugar. Eu chego, mas em lugar nenhum, imagino a trajetória, aplaudo as cenas e sento para beber um vinho ao final do espetáculo. A imprevisibilidade de fatos inéditos, um atrás do outro é meu ponto de chegada, no final nunca conquistado. O desafio de recriá-lo sempre que me leva. Desafio apenas você a recriá-lo assim como eu, lendo. Apenas não seja cego, enxergue além, quem te escreve aqui nunca é quem você imagina tão pouco é sua imaginação, sou apenas eu, Joana.