O vermelho escarlate ofuscante do relógio marca meia-noite e vinte e quatro, minha mente não me deixa em paz. Devo revelar meus sentimentos, agora, nesse quarto escuro, onde minha única bússola é a luz que sai da tela e me convida com pressa para uma verborragia insana. Fui proibida de ser. Minha primeira pessoa está censurada e a terceira, ansiosa, espera sua chegada. Ela não acontecerá. De mim, você não sabe nada. Só sabe o que eu o oriento a ver, sentir. Então, me obedeça agora e teremos uma parceria perfeita. Feche os olhos e sinta comigo, nada mais verá a não ser o que meus dedos queiram que você sinta. Deixe-me guiá-lo e não se preocupe com onde irá chegar, chegaremos juntos. A qualquer momento pare, rasgue, esqueça, estou lhe desafiando a tentar. Conhecerá por meio de mim o que é o Meu sentir, em uma sedução selvagem. Imagine. Vejo a porta entreaberta, dela sai aquele típico feixe de luz sombria. Abro-a delicadamente em minha insaciável curiosidade e escuto aquele ranger misterioso de madeira rústica. Tiro os sapatos e entro. Sinto o aroma das velas me envolver e a curiosidade que surgiu em mim ainda naquela porta, fica cada vez mais desafiada a descobrir de onde surgira tamanha exuberância. Minha cama estava de frente para a varanda, como de costume, mas o vento que violava meu quarto estava mais místico e carregado do que nunca, me convidava para algo que eu ainda não sabia dizer o que era. Alguém me seduzia e eu não queria que essa sedução acabasse, era meu vício. Com passos de veludo caminhava como quem quisesse chegar ao fundo de um mistério, descobrir um assassino, e conforme os segundos passavam minha vontade era de descobrir mais nada e sim de ser assassinada. O calor da lareira ao canto da sala, alimentava meu desejo e o frio vindo da janela me tocava como quem toca o cetim. Pisava em meu assoalho de madeira, que esta noite estava coberto com pétalas negras de rosas, cuidadosamente escolhidas para o exato segundo em que meus pés as quebrassem. Minha casa era antiga e à noite suas paredes rangiam com o vento, me confidenciando milhares de tentações. Quem estava ali me seduzindo? Quem era meu amante, meu admirador? Não sei. Só sei que agora me seduziu por completa e me teve; o amo. o admiro. Sentei na beira da cama e fechei os olhos, toquei sutilmente meu corpo cansado na tentativa de fazer com que chegasse até mim. Enlouqueceu-me. Conseguiu seu objetivo, e aqui estou, apaixonada por meu sedutor desconhecido. A tensão me toma. Solto meus cabelos, tiro meu relógio, meus brincos. Tudo parece pesar. Finalmente caio sobre a cama... Silêncio.
Escuto um som aveludado, como um sussurro... Discreto, ao fundo do quarto, de um tilintar de dedos em um isqueiro. Volto meu rosto rapidamente, na pressa que me faz querer vê-lo. E ali estava, o tempo todo, ao fundo, onde cuidadosamente planejado passei despercebida. Sentada elegantemente em uma poltrona de couro, com as pernas inclinadas em uma posição soberba, como uma baronesa toda de preto. Colar de pérolas e cabelos soltos, longos e morenos, olhos de safira maquiados e indecifráveis, parados olhando para mim. Batom rubro, em uma boca seca e indescritível. O cigarro alojado entre os dedos, como se o entrelaçasse. Ali, alojada confortavelmente em sua cadeira estava o sujeito de tudo isso: Eu. Parada e imponente, fazendo meu próprio jogo apaixonante. Estava sendo admirada e desafiada por mim mesma. Eu mandei, eu fiz, eu vivi, eu criei: Tudo.
Agora lhe pergunto, querido e fiel leitor, que receava aos meus comandos e agora chega até aqui, com um só sentimento: Desejo. Quem é o sujeito, quem é o objeto, quem é o leitor? Eu ou você?
Ah... Acredite Mon amour, nós somos os três.
