terça-feira, 3 de maio de 2011

Ironia perpétua

Até que ponto conhecemos tão bem nossas fraquezas que nunca as confundimos com nossas qualidades mais precariamente sutis? Logo pela manhã realizo que nem sempre, por mais que tentemos, conseguimos manter a coerência que tanto necessitamos para ter uma vida razoável. É por causa disso que nos decepcionamos, nos frustramos, desistimos. Sua garganta seca, seu ânimo desaparece, e a força que tinha para acreditar até nas verdades mais insolentes, some. A esperança que faz de você um nato romântico e idealista se dispersa pela realidade que te engole, dia-a-dia. Não nos surpreendemos mais, portanto, pela ausência de novos idealizadores que defendam, por nós, aquilo que não conseguimos mais. Perderam eles mesmos os seus próprios. Ainda que, por um instante, admitamos que aqueles sejam subsistentes. Cansados, vazios e empoeirados procuram no deserto de si mesmos algum resíduo que os lembrem do que já foram.

Eis que um dia, descobre-se que tudo nada mais é que uma prisão particular. Nossa própria, limpa e histérica. Por dentro, gritamos batendo nos portões de ferro maciço, procurando quem nos entregará as chaves para a nossa essência. Nada mais é claro, apagaram as luzes. Cavando cada vez mais fundo pelo medo do que encontraremos lá fora, depois de tantos desafetos. Com a terra nossas suas unhas, cavamos mais e mais. Não sabemos ainda se queremos escondê-la dos outros ou de nós mesmos, como um tesouro sem mapa e sem rastro. Quanto mais profundo, mais sangram-nos as unhas, cansadas, mas movidas pela ânsia de não regressar: jamais... Até que ao fundo, exaustos, encontramos as chaves, como se tivéssemos cavado, cavado e cavado, exaustivamente, para que ao fim pudéssemos encontrá-las. Aquelas, que sequer premeditávamos ver, que por medo não queríamos ter, aquelas que lhe dariam a chance de reencontrar a nós mesmos. Ali, no fundo do poço de nossa prisão particular, com as unhas sangrando, no túnel para o esconderijo sem volta, no fim.

Dentro daquele túnel, frio e sem esperança, estava o tempo todo a chave que tanto procurávamos. As colocamos no bolso e continuamos a cavar.