domingo, 13 de abril de 2008

Dilema do Ser

Quando nasci, decidi que não queria ser. Queria apenas viver assim: como quem não é nada. Fui desse jeito, crescendo de uma maneira diferente dos outros, sempre atenta à minha escolha que sempre parecera incomum, mas não sabia explicar o porquê, apenas via nitidamente dentro e fora, o tempo todo, como um dom: as pessoas se prendiam em ser e o viver passava despercebido. Sentia-me confusa com freqüência quando pequena, pois eu sempre pensei diferente dos outros, agi de forma incomum e principalmente entreguei, desejei, amei, decepcionei, odiei, muito mais intensamente que qualquer pessoa que tenha conhecido. Sem entender o porquê de não querer entender nada me deitava e observava as coisas que para todos eram como eram para mim: sem explicação. Observava assim, o céu, as estrelas, o relógio, o vento, as cores das coisas, o jeito das pessoas, o movimento dos carros, as pedras, o chão, as casas e nada disso ou daquilo faziam sentido para mim, mas pelo menos sentia que não fazia para mais ninguém e ficava calma por um momento. Até que me confundia de novo. Quando guardava os meus pensamentos dentro de mim e resolvia sair para brincar, ouvia-os conversarem sobre as coisas que eu dedicava meu tempo pensado, mas nenhum deles parecia ter fascínio por nada, como se nada daquilo fosse importante, não tivessem valor. Citavam-nas sempre, mas apenas nas lacunas entre as palavras. Duravam menos que pequenos segundos de um instante, em que eu cuidadosamente fazia questão de estar atenta para absolvê-las. “Fui até a lanchonete hoje e encontrei fulaninho por lá”. Vento, pedra, céu, tempo, cores, jeito: nada foi mencionado por ninguém explicitamente, mas eu absolvi-as todas, sempre. Passei a sentir, mais uma vez, que eu não era como os outros. Eu vivia tanto que me apegava as coisas e as guardava dentro de mim, como se fossem minhas e, portanto, tornava-as especiais. Fui amadurecendo e deixando a maioria das minhas dúvidas de lado. Continuei vivendo daquele meu jeito assim de quem não é nada e cheguei à puberdade. Acredito que agora, mais do que antes notava com clareza a minha disparidade com os outros. Possuía vários amigos, pois de tanto odiá-los, amava-os e de tanto amá-los os odiava às vezes. Alguns diziam que me amavam em troca, outros estavam longe de me amar, e não faziam questão do contrário, mas todos me respeitavam e isso parecia ser o suficiente. Outros me achavam estranha por amar tanto assim. Acontece que nenhum sabia a verdade sobre mim, pois eu mesma ainda não havia descoberto: meus sentimentos sempre foram verdadeiros, mas nem sempre bons. Mesmo amando tanto e tão fielmente, nunca pude afetar ou descobrir como os outros pensam, ou agem, e dessa maneira decepcionava-me. Tanto por esperar demais dos que amava (espelhava-me em mim mesma) como por, por não ter Sido, não ter tido a malícia de viver. Dessa maneira chorava, como se meus sentimentos por melhores que fossem não servissem de nada. Não me protegeram do sofrimento, da decepção, da angústia, do remorso. Eu não fui o suficientemente sábia para entender que meus sentimentos também me fariam sofrer. Sem nunca entender o porquê das coisas, nunca conseguira desenvolver a capacidade de selecionar onde emocionalmente me envolveria e me via uma tola sentimental e ingênua. Foi quando me encontrei em um dilema onde todas as dúvidas que tinha deixado para trás voltavam mais fortes e confusas do que nunca. Será que sua opção foi tão errada a ponto de querer voltar atrás e fazer tudo de novo, sendo? Será que todas as suas decepções foram em vão? E seu amor apenas em troca de pequenas satisfações sem necessidade? Se pudesse deixar de sentir, apenas para poder se sentir menos tola, menos ingênua, menos decepcionada, deixava? Com os olhos fechados, mais uma vez fazia o que nascera fazendo, sua escolha: não era nada, tampouco tudo seria uma mera desilusão. Como sempre sem entender nada, apenas sentiu. Tranqüilidade. Afinal. A soma de todos seus medos a fez enxergar coisas que apenas amando não enxergaria nunca: viver é ser alguém que sente tudo e antes de qualquer coisa fazer com que tudo seja viver.

Um comentário:

Soyer disse...

É um eterno retorno, simplesmente não cessam. Cabe a ti ir caminhando e no final dançar um tango argentino.
Fascinío ao devorar cada palavra :)
beijo Nai.